Tragédia

Explosão em distribuidora de gás ainda levanta dúvidas

Laudo de técnicos do Instituto Geral de Perícias aponta divergências na versão da empresa

Carlos Queiroz -

Já se passaram cinco meses da explosão em uma distribuidora de gás na avenida Fernando Osório, em Pelotas, mas muitas perguntas continuam sem respostas. Com base em imagens capturadas dias antes da explosão, o laudo pericial aponta divergências nas declarações da empresa sobre a causa do incidente que levou à morte do funcionário Aloir da Rosa Neutzling. O inquérito policial ainda não foi concluído.

Elaborado inicialmente em 23 de novembro, três dias após a explosão, o relatório técnico foi atualizado no dia 26 de janeiro de 2021. Pela versão oficial da empregadora, o principal motivo para a explosão foi um vazamento ocorrido no interior da plataforma, em um local onde uma tubulação de gás deveria estar inativa. Assim, o gás acumulado no local explodiu devido a uma operação de soldagem e perfuração no exterior da plataforma.

No entanto, o processo de apuração acidentário, com base em informações repassadas pelo corpo de peritos criminais do Instituto Geral de Perícias (IGP), revelou uma história diferente. Imagens registradas cerca de uma semana antes do incidente revelaram a existência de uma porta metálica, com acesso ao interior da plataforma, junto ao epicentro da explosão. A abertura, inclusive, foi apontada como meio de acesso justamente à tubulação onde ocorreu o vazamento de gás.

“Conforme consta nas manifestações da empregadora no processo, esta não cumpria elementos básicos da NR-33. Tal espaço confinado não possuía cadastro algum e muito menos qualquer avaliação de risco, onde se esperaria existir, por exemplo, apontamento de risco de vazamento de GLP [gás liquefeito de petróleo] no interior da plataforma e necessidade de haver sensor de detecção e devidos meios de ventilação para permitir que o GLP que eventualmente vazasse escapasse para a atmosfera sem risco de gerar atmosfera explosiva no interior da plataforma. Tal risco efetivamente se concretizou e causou explosão com quatro vítimas, uma delas fatal, e danos materiais severos ao estabelecimento e imóveis vizinhos”, diz trecho do relatório.

Investigação em andamento
Segundo a delegada Walquíria Meder, da 2ª Delegacia de Polícia de Pelotas, ainda faltam ser ouvidas duas testemunhas cujos depoimentos não foram agendados. Após, o inquérito vai ser concluído e remetido à Justiça.

Quem aguarda por um desfecho na história é Ledemar Neutzling. Aos 71 anos, o pai de Aloir está longe de ter superado o trauma causado no dia 17 de novembro do ano passado. Cinco meses depois do incidente que vitimou seu filho, ele afirma que a família sequer foi contatada pela empresa. “Eles não fizeram nada, não deram nenhuma atenção à família, não vieram, não apareceram, não pagaram nada, não perguntaram se a gente tinha gastado alguma coisa com despesas funerárias, com tratamento psiquiátrico que eu estou fazendo até hoje”, relata.

Para Ledemar, as novas evidências podem ajudar a Justiça a esclarecer o que, para ele, já estava nítido há muito tempo. “Nós estamos buscando uma reparação monetária e uma reparação penal. Eles agiram com dolo, sabiam que tinha gás e mandaram ele fazer o serviço. Agora tem esse laudo mostrando que estava tudo errado, com falta de equipamentos e outras coisas mais. Não tinha alvará. E tudo isso acabou matando meu filho. Não é falecer, é matar mesmo. Porque não tinha um teste de gás antes de começar a serviço. Há quanto tempo estava todo aquele gás armazenado ali e eles não viram?”

Situações opostas
A explosão da distribuidora trouxe inúmeros transtornos para os imóveis situados nas redondezas. E enquanto alguns já foram ressarcidos, outros precisaram recorrer à Justiça para tentar resolver a situação. Entre aqueles que entraram em acordo com a empresa está Roselaine Maske, 42. Ela conta que a família arcou com todas as despesas dos danos causadas no imóvel, mas depois a Liquigás acabou ressarcindo os gastos.

Quem não teve a mesma sorte foi Dario Bonow Milech. Morador do local desde o nascimento, há 59 anos, ele viu de perto quando o telhado de sua oficina desabou apenas alguns segundos depois da explosão. Sem acordo com a companhia, Milech permanece sem teto e, com isso, sem condições de trabalhar. “Já são cinco meses sem poder trabalhar. Tentamos conversar, mas não houve acordo”, diz ele, que está buscando seus direitos judicialmente.

Contraponto
Procurada pela reportagem do Diário Popular, a Copagaz - que adquiriu a Liquigás no final do ano passado - se manifestou sobre o assunto através de nota enviada pela assessoria de imprensa. “A empresa está trabalhando junto com todas as autoridades públicas para esclarecer as causas do lamentável episódio e determinar a responsabilidade dos envolvidos, reafirmando seu compromisso com a segurança”, diz o comunicado.

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